Compras coletivas - sou só eu?
Quem me conhece sabe que tenho uma relação ótima com shoppings e lojinhas de bairro, adoro uma promoção, uma vitrine e uma caroçagem básica. Quando estava viajando, quase enlouqueci na H&M por ver coisas tão baratas e promos sempre presentes. Ao chegar no hotel, olhei as etiquetas. Cada peça vinha de um país pobre, como Cambodja, Bangladesh, China, whatever. Fiquei pensando nisso, e na história do consumo consciente.
Se algo é muito barato, sempre alguém paga caro por isso. No caso, eu paguei barato, e alguma mão de obra sofrida pagou caro. A loja mantém sua margem de lucro, mesmo que baixa (para vender muito).
Bom, eis que o Brasil começa a falar agora em sites de compras coletivas, muitos começam a surgir, os pioneiros nadam em dinheiro, e, como toda onda na Internet muitos seguem achando que vão ganhar muita grana, com o pensamento baixo custo + milagre de vendas. Não sei se é um post azedo porque recebo pelo menos 2 ligações por dia de prospects “querendo um site igual o Peixe Urbano”. Trato bem, tento explicar pro cara que o negócio pode funcionar mas não é milagroso e demanda investimento e blablabla. Quando você conta pro cara que ele não pode ficar na informalidade num empreendimento destes, ele geralmente desliga triste (ou liga pra outro). E aí que entra o que eu quero defender (não afirmar). É uma veia de pensamento minha (e pelo visto acho que estou com poucos companheiros) e de dúvidas também.
Hoje compras coletivas são uma onda boa, numa maré que aparenta ser lucrativa e inovadora. Em pouco tempo se tornará commodity. Os comerciantes que hoje se encantam com essa possibilidade de encher seus estabelecimentos com novos consumidores, suprir um gap, evitar desperdícios (alô povo das compras, olhem que argumentos bonitos), a longo prazo irão fazer contas. É obvio o quanto a margem de lucro cai - “mas e daí?”, afinal está se vendendo com pouca lucratividade para muitas pessoas. Alô Chris “cauda longa” Anderson, é você aí de novo? Nada de errado com isso, muito menos com o Mr. Anderson, entretando como empreendedora prefiro pensar no longo prazo.
O que acontece quando, numa localidade pequena, vários comerciantes entram nessa disputa e banalizam suas margens de lucro? O que acontece quando os consumidores em geral ficarem mimados ao ponto de criarem hábitos e consumo restritivos e commoditizados? O que acontece quando esses mesmos consumidores criarem hábitos e exigências de desprezarem a qualidade de serviço e só pensarem em preço? Ele já pensam em preço, todo mundo quer pagar barato e ninguém quer ser passado para trás. O problema é quando reduzir imensamente a margem de lucro parecer uma vantagem para “garantir faturamento”. O que acontece quando você vende mais do que pode? O que acontece quando não há controle minucioso de estoque no comércio (desculpe, mas é bemmmm difícil isso acontecer)? O que pode rolar com a superestimativa em cima de números de venda qe não acontecem? Como lidar com a redução de margens a ponto das mesmas não terem gordura para possíveis variações de mercado? Isso tudo é problema do estabelecimento? E, para finalizar, esse tipo de “venda” estimula o cara a melhorar ou a estagnar o serviço que ele presta e produto que ele entrega? Cadê o valor-agregado minha gente?
Comoditização e disputa por preços já acontece bastante aqui em Santos, acredito que acontecia mais no passado, mas diversos lugares de boa qualidade fecharam suas portas pelo foco em serviços com uma margem um pouquinho maior. Preciso ir longe? Drogaria Iporanga virou Poupafarma. Casas noturnas, restaurantes e outras marcas viraram pó. Quantos restaurantes japoneses abriram em tão pouco tempo?
Ícone de qualidade em atendimento em restaurante em Santos? Beduíno. É barato? Não! É caro? Também não. Os caras tem valor agregado. Os caras precisam manter a margem deles no lugar. E eu vou lá e pago, feliz. Compras coletivas lá? Para mim seria mais desvantagem encarar aquele lugar lotado pagando menos e sendo mal atendida. Prefiro manter o atendimento, qualidade e margem de sempre e pagar o preço “normal”.
Minha grande preocupação com a onda, é que dessa vez não são os consumidores que saem perdendo, não é a mão-de-obra sofrida que se fode por meio dólar a cada 250 camisetas produzidas.
São os comerciantes. E quem vive de comércio (que não é o meu caso) sabe que estoque e margem não são nada fáceis de se domar e são o segredo do negócio. Espero que quando o primeiro alfinete penetrar nesse bolha de coletividade no consumo, bons estabelecimentos não estourem junto.









