Em lembro que no dia 21 de março de 2006 eu estava trabalhando no Ela vai voltar, no meio do olho do furacão, e o Carlitos passou por uma cirurgia drástica. Deu tudo certo, e mesmo sendo um sufoco posso dizer que as coisas deram certo. Mas a partir daí, eu acho que já tinha começado uma contagem regressiva no meu inconsciente.
O Carlitos se recuperou, e de forma incrível e que surpreendeu os veterinários dele. Hoje mesmo, a Fernanda o chamou de Highlander. Pena que o apelido durou apenas algumas horas. Enfim, a grande coincidência disso tudo, é que hoje, finalizamos o clipe Pontes Indestrutíveis, também do Charlie Brown Jr. E hoje também a vida do Carlitos se foi, deixando uma bela metáfora com a música…
O Carlitos sempre correu do meu lado, seja para tentar roubar meu sorvete ou para dividir uma noite de ócio. Aliás diria uma manhã de ócio. Ele ia para minha cama às 6h da manhã, depois de ter passado a noite na cama da minha mãe e só levantava quando eu levantava.
Tudo começou em 1994, julho. Achamos ele em Ubatuba, em uma viagem. Nessa viagem ganhei 2 amigos, aqueles do maior grau de importância que alguém pode ter. Eu tinha acabado de conhecer a Flávia e ela viajou conosco. Um dia, minha mãe e a Letícia sairam da casa onde estávamos hospedados, e voltaram com um gato praticamente morto, cheio de pulgas, pesando algumas gramas. Era o Carlitos. Nessa época eu já tinha uma gata, chamada Lady. O Carlitos foi periciado como fêmea, pois nem saco ele tinha naquela época. Chegando em Santos, descobrimos que ele era macho. Depois de tanta insistência para trazermos “a gatinha” minha mãe não teve coragem de pedir pra gente se livrar dele. Enfim, tenho uma foto da Flávia tirando um cochilo no banco de trás do carro do meu pai, com o Carlitos no colo, numa cena linda.
Enfim, foram 13 anos. A Lady morreu 2 anos depois por causas não-naturais, e o Carlitos viveu até hoje. Não consigo parar de olhar essa foto que tirei em 12 de agosto.
Hoje é o dia mais triste da minha vida. Não tive outro pior. Minha vida é repleta de momentos felizes, incríveis. Nunca tive grandes perdas. Ok, tive algumas na família, mas vou ser extremamente hipócrita de falar que foi pior que isso.
- Ohhhh, que absurdo! Comparar um ser humano com um gato?
Não se comparam, de fato. E a cada dia mais, o Carlitos me provou que quem leva a fama de traiçoeiros, são injustamente, os gatos. Seres humanos são traiçoeiros. Seres humanos têm interesses. Gatos - que levam a fama de interesseiros por pedirem comida ou casa - estão apenas lutando por sua sobrevivência. Enfim, tenho provas absolutas e concretas, que de nunca tive nenhuma demonstração de traição do meu gato. Até o fim, ele ficou do meu lado, e eu do dele. Isso para mim, é o mais importante. Lutar até o fim, a continuação.
Ok, acabou. Mas a história não acaba hoje. Estou sofrendo bastante, ouvi minha mãe chorar muito, a Letícia chorar muito, o Maurício chorar muito. A Rosália e a minha tia, então, estou sem coragem de contar para elas. O Carlitos está comigo desde que eu tinha 12 anos! Desde que eu estava na sexta-série, era uma piveta que colecionava papel de carta e stickers, o Carlitos vivia me cercando… é muito tempo. Não sei descrever se ele era um filho, um irmão ou um guardião. Eu só sei que fui privilegiada de ter uma companhia como ele durante todo esse tempo.
Enfim, claro, todo mundo deve pensar “ah, eu sei como é isso…”.
Não, você NÃO sabe. Desculpe a pretensão, mas você está no meu blog.
Uma coisa é uma pessoa que gosta de bicho ter um cachorro ou um gato que é um acessório, um bibelô, ou uma almofada de formato diferente (e que respira) no sofá, ver seu bicho morrer. É muito sofrimento, sim, sem dúvida.
Outra coisa é uma pessoa maluca por gatos, de maneira mais alucinada possível, ter um gato que foi um protagonista da sua vida. O gato. E simplesmente um dia ter que se conformar que ele não existe mais, e não poderá dividir os 5 minutinhos a mais na cama de uma manhã ensolarada com você.
Acabou o contato físico, sobra a dor e 13 anos de lembranças perfeitas.
Amo você, gorducho.
Muito muito mais do que te contei, e olha que eu chegava a ser repetitiva de tanto que eu te falava isso.
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COMENTÁRIO PROFISSIONAL:
Ver uma veterinária chorar com você realmente é ter certeza de que ela fez tudo que era possível, e que ela durante esse tempo fez jus ao diploma dela. Profissionais que se envolvem, que tem caráter, e que entendem realmente o significado da palavra carreira, responsabilidade e competência.
Tenho trauma de veterinários (pra não dizer uma certa revolta com o veterinário-jet-set mais cuzão de Santos), mas o Carlitos não podia ter caído em mãos melhores nesse final da sua vida.
